Tudo de amor que existe em mim foi dado.Tudo que fala em mim de amor foi dito.Do nada em mim o amor fez o infinitoQue por muito tornou-me escravizado.Tão pródigo de amor fiquei coitadoTão fácil para amar fiquei proscrito.Cada voto que fiz ergueu-se em gritoContra o meu próprio dar demasiado.Tenho dado de amor mais que coubesseNesse meu pobre coração humanoDesse eterno amor meu antes não desse.Pois se por tanto dar me fiz enganoMelhor fora que desse e recebessePara viver da vida o amor sem dano.(Vinícius de Morais)

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...
Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face...
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
porque eu fui o grande íntimo da noite...
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Morais)